« […] A temperatura que tem pairado sobre a nossa capital tem concorrido para que as janellas dos predios de Lisboa se abram á noite, e assim as casas illuminadas dão um aspecto festivo á cidade. Já é um beneficio que o calor nos traz, para tirar Lisboa do aspecto sepulchral em que jaz quasi sempre. […] [Resolvemos] por essas noites de calor darmos diversos passeios por alguns bairros da nossa capital, para estudarmos se poderiamos concluir se haveria alguma ligação entre os habitantes d’esses bairros e as musicas executadas. […] Começamos pela Baixa, rua dos Fanqueiros, Prata, Augusta, Aurea, [e] pouca musica ouvimos, a não ser umas insignificantes valsas corriqueiras […] onde corria animado um salsifré ameno. Já nas ruas transversaes, ouvimos algumas phantasias da ‘Norma’, ‘Traviata’, e muito da ‘Tosca’ e ‘Bohème’, d’estas a romanza do 3.º acto e a valsa do 2.º. Rua Nova do Almada, Carmo e Chiado, ouvimos algumas valsas de Berger, Walteufel, e uma phantasia da ‘Gioconda’, por signal muito mal feita! Na generalidade pela Baixa os pianos não são bons, sons aguitarrados e outros desafinados. Esquecia-me de dizer que na rua dos Retrozeiros ha alli uma menina que conhece todas as musicas das revistas do anno, que praga!

Entremos na Avenida da Liberdade e avenidas novas. A musica já tem um outro aspecto. […] [Ouvimos] já um nocturno de Chopin, uma phantasia bailado da Chaminade, outra vez a ‘Tosca’ e mais a ‘Fedora’, ‘Rigoletto’, ‘Lucia’, e todas as operettas modernas […].

Na Avenida Fontes Pereira de Mello, ouvimos bastante Grieg, Sinding e uns trechos da ‘Walkiria’!!! Só ouvimos Beethoven na rua Castilho […].

É o bairro da Lapa, talvez por ser o mais tranquillo, em que a musica soffre um culto mais transcendente. Não só o piano tem um lugar de destaque como os instrumentos de corda. Ouvimos Bach, Mozart, Beethoven, Mendelssohn, Schubert, Schumann, Grieg, Chopin, Paderewski, Debussy, fados de Rey-Colaço, obras de Vianna da Motta, e quasi toda a obra de Wagner! Não nos devemos esquecer que ouvimos a dança da ‘Salomé’ de Strauss e uma obra de Saint-Saëns […].

Não fomos a Alfama, nem ao bairro de Alcantara, no primeiro predominará decerto o fado, e no segundo as meninas executarão naturalmente as inspiradas musicas ouvidas nos theatros da feira. […]

[O] piano segue sempre na sua senda de infelicidade; pois ouvi muita obra musical verdadeiramente assassinada! […] »

“A musica e os bairros de Lisboa — Uns passeios nocturnos — O piano sempre infeliz”, Alfredo Pinto (Sacavém), 1913